quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Porta Fidei do Sumo Pontífice Bento XVI - Com qual se proclama o ano da Fé

1. A porta da Fé (cf. At 14, 27), que introduz na vida de comunhão com Deus e permite a entrada na sua Igreja, está sempre aberta para nós. É possível cruzar este limiar, quando a Palavra de Deus é anunciada e o coração se deixa plasmar pela graça que transforma. Atravessar aquela porta implica embrenhar-se num caminho que dura a vida inteira. Este caminho tem início com o Batismo (cf. Rm 6, 4), pelo qual podemos dirigir-nos a Deus com o nome de Pai, e está concluído com a passagem através da morte para a vida eterna, fruto da ressurreição do Senhor Jesus, que, com o dom do Espírito Santo, quis fazer participantes da sua própria glória quantos crêem n'Ele (cf. Jo 17, 22). Professar a fé na Trindade - Pai, Filho e Espírito Santo - equivale a crer num só Deus que é Amor (cf. 1 Jo 4, 8): o Pai, que na plenitude dos tempos enviou seu Filho para a nossa salvação; Jesus Cristo, que redimiu o mundo no mistério da sua morte e ressurreição; o Espírito Santo, que guia a Igreja através dos séculos enquanto aguarda o regresso glorioso do Senhor.

2. Desde o princípio do meu ministério como Sucessor de Pedro, lembrei a necessidade de redescobrir o caminho da fé para fazer brilhar, com evidência sempre maior, a alegria e o renovado entusiasmo do encontro com Cristo. Durante a homilia da Santa Missa no início do pontificado, disse: «A Igreja no seu conjunto, e os Pastores nela, como Cristo devem pôr-se a caminho para conduzir os homens fora do deserto, para lugares da vida, da amizade com o Filho de Deus, para Aquele que dá a vida, a vida em plenitude» 1. Sucede não poucas vezes que os cristãos sintam maior preocupação com as consequências sociais, culturais e políticas da fé do que com a própria fé, considerando esta como um pressuposto óbvio da sua vida diária. Ora um tal pressuposto não só deixou de existir, mas frequentemente acaba até negado.2 Enquanto, no passado, era possível reconhecer um tecido cultural unitário, amplamente compartilhado no seu apelo aos conteúdos da fé e aos valores por ela inspirados, hoje parece que já não é assim em grandes sectores da sociedade devido a uma profunda crise de fé que atingiu muitas pessoas.

3. Não podemos aceitar que o sal se torne insípido e a luz fique escondida (cf. Mt 5, 13-16). Também o homem contemporâneo pode sentir de novo a necessidade de ir como a samaritana ao poço, para ouvir Jesus que convida a crer n'Ele e a beber na sua fonte, donde jorra água viva (cf. Jo 4, 14). Devemos readquirir o gosto de nos alimentarmos da Palavra de Deus, transmitida fielmente pela Igreja, e do Pão da vida, oferecidos como sustento de quantos são seus discípulos (cf. Jo 6, 51). De facto, em nossos dias ressoa ainda, com a mesma força, este ensinamento de Jesus: «Trabalhai, não pelo alimento que desaparece, mas pelo alimento que perdura e dá a vida eterna» (Jo 6, 27). E a questão, então posta por aqueles que O escutavam, é a mesma que colocamos nós também hoje: «Que havemos nós de fazer para realizar as obras de Deus?» (Jo 6, 28). Conhecemos a resposta de Jesus: «A obra de Deus é esta: crer n'Aquele que Ele enviou» (Jo 6, 29). Por isso, crer em Jesus Cristo é o caminho para se poder chegar definitivamente à salvação.

4. À luz de tudo isto, decidi proclamar um Ano da Fé. Este terá início a 11 de Outubro de 2012, no cinquentenário da abertura do Concílio Vaticano II, e terminará na Solenidade de Nosso Senhor Jesus Cristo Rei do Universo, a 24 de Novembro de 2013. Na referida data de 11 de Outubro de 2012, completar-se-ão também vinte anos da publicação do Catecismo da Igreja Católica, texto promulgado pelo meu Predecessor, o Beato Papa João Paulo II, 3 com o objetivo de ilustrar a todos os fiéis a força e a beleza da fé. Esta obra, verdadeiro fruto do Concílio Vaticano II, foi desejada pelo Sínodo Extraordinário dos Bispos de 1985 como instrumento ao serviço da catequese4 e foi realizado com a colaboração de todo o episcopado da Igreja Católica. E uma Assembleia Geral do Sínodo dos Bispos foi convocada por mim, precisamente para o mês de Outubro de 2012, tendo por tema A nova evangelização para a transmissão da fé cristã. Será uma ocasião propícia para introduzir o complexo eclesial inteiro num tempo de particular reflexão e redescoberta da fé. Não é a primeira vez que a Igreja é chamada a celebrar um Ano da Fé. O meu venerado Predecessor, o Servo de Deus Paulo VI, proclamou um semelhante, em 1967, para comemorar o martírio dos apóstolos Pedro e Paulo no décimo nono centenário do seu supremo testemunho. Idealizou-o como um momento solene, para que houvesse, em toda a Igreja, «uma autêntica e sincera profissão da mesma fé»; quis ainda que esta fosse confirmada de maneira «individual e colectiva, livre e consciente, interior e exterior, humilde e franca».5 Pensava que a Igreja poderia assim retomar «exacta consciência da sua fé para a reavivar, purificar, confirmar, confessar».6 As grandes convulsões, que se verificaram naquele Ano, tornaram ainda mais evidente a necessidade duma tal celebração. Esta terminou com a Profissão de Fé do Povo de Deus,7 para atestar como os conteúdos essenciais, que há séculos constituem o património de todos os crentes, necessitam de ser confirmados, compreendidos e aprofundados de maneira sempre nova para se dar testemunho coerente deles em condições históricas diversas das do passado.

5. Sob alguns aspectos, o meu venerado Predecessor viu este Ano como uma «consequência e exigência pós-conciliar» 8, bem ciente das graves dificuldades daquele tempo sobretudo no que se referia à profissão da verdadeira fé e da sua recta interpretação. Pareceu-me que fazer coincidir o início do Ano da Fé com o cinquentenário da abertura do Concílio Vaticano II poderia ser uma ocasião propícia para compreender que os textos deixados em herança pelos Padres Conciliares, segundo as palavras do Beato João Paulo II, «não perdem o seu valor nem a sua beleza. É necessário fazê-los ler de forma tal que possam ser conhecidos e assimilados como textos qualificados e normativos do Magistério, no âmbito da Tradição da Igreja. Sinto hoje ainda mais intensamente o dever de indicar o Concílio como a grande graça de que beneficiou a Igreja no século XX: nele se encontra uma bússola segura para nos orientar no caminho do século que começa».9 Quero aqui repetir com veemência as palavras que disse a propósito do Concílio poucos meses depois da minha eleição para Sucessor de Pedro: «Se o lermos e recebermos guiados por uma justa hermenêutica, o Concílio pode ser e tornar-se cada vez mais uma grande força para a renovação sempre necessária da Igreja».10

6. A renovação da Igreja realiza-se também através do testemunho prestado pela vida dos crentes: de facto, os cristãos são chamados a fazer brilhar, com a sua própria vida no mundo, a Palavra de verdade que o Senhor Jesus nos deixou. O próprio Concílio, na Constituição dogmática Lumen gentium, afirma: «Enquanto Cristo "santo, inocente, imaculado" (Heb 7, 26), não conheceu o pecado (cf. 2 Cor 5, 21), mas veio apenas expiar os pecados do povo (cf. Heb 2, 17), a Igreja, contendo pecadores no seu próprio seio, simultaneamente santa e sempre necessitada de purificação, exercita continuamente a penitência e a renovação. A Igreja "prossegue a sua peregrinação no meio das perseguições do mundo e das consolações de Deus", anunciando a cruz e a morte do Senhor até que Ele venha (cf. 1 Cor 11, 26). Mas é robustecida pela força do Senhor ressuscitado, de modo a vencer, pela paciência e pela caridade, as suas aflições e dificuldades tanto internas como externas, e a revelar, velada mas fielmente, o seu mistério, até que por fim se manifeste em plena luz». 11

Nesta perspectiva, o Ano da Fé é convite para uma autêntica e renovada conversão ao Senhor, único Salvador do mundo. No mistério da sua morte e ressurreição, Deus revelou plenamente o Amor que salva e chama os homens à conversão de vida por meio da remissão dos pecados (cf. Act 5, 31). Para o apóstolo Paulo, este amor introduz o homem numa vida nova: «Pelo Baptismo fomos sepultados com Ele na morte, para que, tal como Cristo foi ressuscitado de entre os mortos pela glória do Pai, também nós caminhemos numa vida nova» (Rm 6, 4). Em virtude da fé, esta vida nova plasma toda a existência humana segundo a novidade radical da ressurreição. Na medida da sua livre disponibilidade, os pensamentos e os afectos, a mentalidade e o comportamento do homem vão sendo pouco a pouco purificados e transformados, ao longo de um itinerário jamais completamente terminado nesta vida. A «fé, que actua pelo amor» (Gl 5, 6), torna-se um novo critério de entendimento e de acção, que muda toda a vida do homem (cf. Rm 12, 2; Cl 3, 9-10; Ef 4, 20-29; 2 Cor 5, 17).

7. «Caritas Christi urget nos - o amor de Cristo nos impele» (2 Cor 5, 14): é o amor de Cristo que enche os nossos corações e nos impele a evangelizar. Hoje, como outrora, Ele envia-nos pelas estradas do mundo para proclamar o seu Evangelho a todos os povos da terra (cf. Mt 28, 19). Com o seu amor, Jesus Cristo atrai a Si os homens de cada geração: em todo o tempo, Ele convoca a Igreja confiando-lhe o anúncio do Evangelho, com um mandato que é sempre novo. Por isso, também hoje é necessário um empenho eclesial mais convicto a favor duma nova evangelização, para descobrir de novo a alegria de crer e reencontrar o entusiasmo de comunicar a fé. Na descoberta diária do seu amor, ganha força e vigor o compromisso missionário dos crentes, que jamais pode faltar. Com efeito, a fé cresce quando é vivida como experiência de um amor recebido e é comunicada como experiência de graça e de alegria. A fé torna-nos fecundos, porque alarga o coração com a esperança e permite oferecer um testemunho que é capaz de gerar: de facto, abre o coração e a mente dos ouvintes para acolherem o convite do Senhor a aderir à sua Palavra a fim de se tornarem seus discípulos. Os crentes - atesta Santo Agostinho - «fortificam-se acreditando». 12 O Santo Bispo de Hipona tinha boas razões para falar assim. Como sabemos, a sua vida foi uma busca contínua da beleza da fé enquanto o seu coração não encontrou descanso em Deus.13 Os seus numerosos escritos, onde se explica a importância de crer e a verdade da fé, permaneceram até aos nossos dias como um património de riqueza incomparável e consentem ainda a tantas pessoas à procura de Deus de encontrarem o justo percurso para chegar à «porta da fé».

Por conseguinte, só acreditando é que a fé cresce e se revigora; não há outra possibilidade de adquirir certeza sobre a própria vida, senão abandonar-se progressivamente nas mãos de um amor que se experimenta cada vez maior porque tem a sua origem em Deus.

8. Nesta feliz ocorrência, pretendo convidar os Irmãos Bispos de todo o mundo para que se unam ao Sucessor de Pedro, no tempo de graça espiritual que o Senhor nos oferece, a fim de comemorar o dom precioso da fé. Queremos celebrar este Ano de forma digna e fecunda. Deverá intensificar-se a reflexão sobre a fé, para ajudar todos os crentes em Cristo a tornarem mais consciente e revigorarem a sua adesão ao Evangelho, sobretudo num momento de profunda mudança como este que a humanidade está a viver. Teremos oportunidade de confessar a fé no Senhor Ressuscitado nas nossas catedrais e nas igrejas do mundo inteiro, nas nossas casas e no meio das nossas famílias, para que cada um sinta fortemente a exigência de conhecer melhor e de transmitir às gerações futuras a fé de sempre. Neste Ano, tanto as comunidades religiosas como as comunidades paroquiais e todas as realidades eclesiais, antigas e novas, encontrarão forma de fazer publicamente profissão do Credo.

9. Desejamos que este Ano suscite, em cada crente, o anseio de confessar a fé plenamente e com renovada convicção, com confiança e esperança. Será uma ocasião propícia também para intensificar a celebração da fé na liturgia, particularmente na Eucaristia, que é «a meta para a qual se encaminha a acção da Igreja e a fonte de onde promana toda a sua força». 14 Simultaneamente esperamos que o testemunho de vida dos crentes cresça na sua credibilidade. Descobrir novamente os conteúdos da fé professada, celebrada, vivida e rezada15 e reflectir sobre o próprio acto com que se crê, é um compromisso que cada crente deve assumir, sobretudo neste Ano.

Não foi sem razão que, nos primeiros séculos, os cristãos eram obrigados a aprender de memória o Credo. É que este servia-lhes de oração diária, para não esquecerem o compromisso assumido com o Baptismo. Recorda-o, com palavras densas de significado, Santo Agostinho quando afirma numa homilia sobre a redditio symboli (a entrega do Credo): «O símbolo do santo mistério, que recebestes todos juntos e que hoje proferistes um a um, reúne as palavras sobre as quais está edificada com solidez a fé da Igreja, nossa Mãe, apoiada no alicerce seguro que é Cristo Senhor. E vós recebeste-lo e proferiste-lo, mas deveis tê-lo sempre presente na mente e no coração, deveis repeti-lo nos vossos leitos, pensar nele nas praças e não o esquecer durante as refeições; e, mesmo quando o corpo dorme, o vosso coração continue de vigília por ele». 16

10. Queria agora delinear um percurso que ajude a compreender de maneira mais profunda os conteúdos da fé e, juntamente com eles, também o acto pelo qual decidimos, com plena liberdade, entregar-nos totalmente a Deus. De facto, existe uma unidade profunda entre o ato com que se crê e os conteúdos a que damos o nosso assentimento. O apóstolo Paulo permite entrar dentro desta realidade quando escreve: «Acredita-se com o coração e, com a boca, faz-se a profissão de fé» (Rm 10, 10). O coração indica que o primeiro acto, pelo qual se chega à fé, é dom de Deus e acção da graça que age e transforma a pessoa até ao mais íntimo dela mesma.

A este respeito é muito eloquente o exemplo de Lídia. Narra São Lucas que o apóstolo Paulo, encontrando-se em Filipos, num sábado foi anunciar o Evangelho a algumas mulheres; entre elas, estava Lídia. «O Senhor abriu-lhe o coração para aderir ao que Paulo dizia» (Act 16, 14). O sentido contido na expressão é importante. São Lucas ensina que o conhecimento dos conteúdos que se deve acreditar não é suficiente, se depois o coração - autêntico sacrário da pessoa - não for aberto pela graça, que consente de ter olhos para ver em profundidade e compreender que o que foi anunciado é a Palavra de Deus.

Papa Bento XVI anuncia o Ano da Fé .


Cidade do Vaticano (Segunda-feira, 17-10-2011, Gaudium Press) Com o objetivo de "dar um novo impulso à missão de toda a Igreja", Bento XVI anunciou neste domingo, 16, durante a Santa Missa de conclusão do 1º encontro dos novos evangelizadores no Vaticano, o "Ano da Fé", evento que terá início em 11 de outubro de 2012, no 50° aniversário da abertura do Concílio Vaticano II, e que se concluirá em 24 de novembro de 2013, na Solenidade de Cristo Rei do Universo.

Conforme o Santo Padre, esta ocasião "será um momento de graça e de compromisso para uma conversão cada vez mais plena a Deus, para reforçar a nossa fé n'Ele e para anunciá-Lo com alegria ao homem do nosso tempo". Em sua homilia, o Santo Padre falou também um pouco sobre o tema do evento: a nova evangelização e deu uma lição para aqueles que pretendem dar um novo impulso ao anúncio do Evangelho no mundo, no qual falta espaço para Deus e para sua Igreja.

Para ilustrar sua lição, o pontífice achou por bem explicar o sentido teológico da história. Isto porque, conforme ele, "a teologia da história é um aspecto importante, essencial, da nova evangelização", pois, "os homens do nosso tempo, após a nefasta época dos impérios totalitários do século XX, têm necessidade de reencontrar um olhar abrangente sobre o mundo e sobre o tempo, um olhar verdadeiramente livre, pacífico, aquele olhar que o Concílio Vaticano II transmitiu nos seus Documentos, e que os meus predecessores, o Servo de Deus Paulo VI e o Beato João Paulo II ilustraram com o seu Magistério", declarou.

Para o Santo Padre, a nova evangelização precisa da força do Espírito, da comunidade e da certeza para ser eficaz. "A certeza da fé compreende a plenitude, a fidelidade, a totalidade do anúncio de Cristo. A certeza que remete também à verdade, como verdadeiro foi Cristo". Falando sobre a frase de Jesus do Evangelho de hoje, "dêem a César o que é de César e a Dues o que é de Deus", o Santo Padre afirmou "que todos são chamados a percorrer a via que é Cristo, porque todo homem traz em si uma outra imagem, aquela de Deus, e, portanto é a Ele, e somente a Ele, que cada um é devedor da própria existência".

"Os novos evangelizadores" - continuou - "são chamados a caminharem por este caminho que é Cristo, para fazer conhecer aos outros a beleza do Evangelho que dá a vida. E nesta via não caminhamos sozinhos, mas acompanhados: uma experiência de comunhão e de fraternidade oferecida a todos os que encontramos, para lhes participar a nossa experiência de Cristo e da sua Igreja", afirmou.

Hoje, durante a Santa Missa, o Papa também usou pela primeira vez um estrado móvel para percorrer a distância da sacristia preparada à direita da capela da Piedade em direção ao altar na nave central da Basílica. As pessoas reagiram com grande simpatia e com aplausos de encorajamento ao Santo Padre.

O motivo não é "nenhuma doença ou indicação de tipo médico", mas "exclusivamente para aliviar o compromisso do Santo Padre, diminuir a fadiga, analogamente a quanto já acontece com o uso do papa-móvel nas procissões de ingresso em ambientes externos e na Praça São Pedro", explicou o porta-voz vaticano, o padre Federico Lombardi. O estrado móvel usado por Bento XVI é o mesmo que foi usado por João Paulo II.

Após a celebração da santa Missa, o Papa Bento XVI presidiu a tradicional oração mariana do Ângelus. A Praça São Pedro estava repleta de fiéis e peregrinos.

Catequese do Papa: a bondade do Senhor

Apresentamos, a seguir, a catequese que o Papa Bento XVI dirigiu hoje aos fiéis reunidos para a audiência geral.

Queridos irmãos e irmãs:

Hoje, gostaria de meditar convosco um Salmo que resume toda a história de que o Antigo Testamento nos dá testemunho. Trata-se de um grande hino de louvor, que celebra o Senhor nas múltiplas e repetidas manifestações da sua bondade ao longo da história dos homens; é o Salmo 136 - ou 135, segundo a tradição greco-latina.

Solene oração de ação de graças, conhecida como o "Grande Hallel", este Salmo é cantado tradicionalmente no final da ceia pascal judaica e foi, provavelmente, também rezado por Jesus na última Páscoa celebrada com seus discípulos; a isso, parece de fato aludir a anotação dos Evangelistas: "Depois de terem cantado o hino, foram para o Monte das Oliveiras" (Mt 26, 30; Mc 14, 26). O horizonte do louvor ilumina, assim, o difícil caminho para o Gólgota. Todo o Salmo 136 executa-se na forma de ladainha, cantada por repetição antifonal "porque o seu amor é para sempre". Ao longo do poema, são enumeradas as muitas maravilhas de Deus na história humana e as suas intervenções em curso em favor de seu povo; e a cada proclamação da ação salvífica do Senhor responde a antífona com a motivação fundamental do louvor: o amor eterno de Deus, um amor que, de acordo com o termo hebraico utilizado, implica fidelidade, misericórdia, bondade, graça, ternura.É esse o motivo unificador de todo o Salmo, repetido de forma sempre gradual, enquanto mudam as suas manifestações pontuais e paradigmáticos: a criação, a libertação do Êxodo, o dom da terra, a ajuda providente e constante do Senhor com relação a seu povo e toda a criatura.

Após um tríplice convite a dar graças a Deus soberano (vv. 1-3), celebra-se o Senhor como Aquele que faz "grandes maravilhas" (v. 4), a primeira das quais é a criação: os céus, a terra , as estrelas (vv. 5-9). O mundo criado não é um simples cenário em que se insere o agir salvífico de Deus, mas é o início mesmo desse agir maravilhoso. Com a criação, o Senhor se manifesta em toda a sua bondade e beleza, compromete-se com a vida, revelando um desejo pelo bem do qual surge cada um dos outros atos de salvação. E, em nosso Salmo, ecoando o primeiro capítulo do Gênesis, o mundo criado é sintetizado em seus principais elementos, com particular ênfase nos astros, no sol, na lua, nas estrelas, criaturas magníficas que governam o dia e a noite. Não se fala aqui da criação do ser humano, mas ele está sempre presente; o sol e a lua existem para ele - para o homem -, para marcar o tempo do homem, colocando-o em relação com o Criador, sobretudo através da indicação dos tempos litúrgicos.

E é exatamente a festa da Páscoa que é evocada logo após, quando, passando pela manifestação de Deus na história, começa com o grande acontecimento da libertação da escravidão egípcia, do Êxodo, traçado em seus elementos mais significativos: a libertação do Egito com a praga dos primogênitos egípcios, a saída do Egito, a passagem do Mar Vermelho, o caminho no deserto até a entrada na Terra Prometida (vv. 10-20). Estamos no momento original na história de Israel. Deus interveio poderosamente para levar o seu povo à liberdade; através de Moisés, seu enviado, impôs-se ao Faraó, revelando-se em toda a sua grandeza, e, finalmente, quebrou a resistência dos egípcios com o terrível flagelo da morte dos primogênitos. Assim, Israel pode deixar o país da escravidão, com o ouro dos seus opressores (cf. Ex 12,35-36), "de cabeça erguida" (Ex 14, 8), regozijando-se no sinal da vitória. Também no Mar Vermelho o Senhor age com misericordioso poder. Frente a um Israel amedrontado por ver os egípcios que os perseguem, a ponto de se arrependerem de terem deixado o Egito (cf. Ex 14,10-12), Deus, como diz o Salmo, "dividiu o Mar Vermelho em duas partes [...],fez passar Israel em seu meio [...] e derrubou o Faraó e seu exército" (vv. 13-15). A imagem do Mar Vermelho "dividido" em dois parece evocar a ideia do mar como um grande monstro que é cortado em dois pedaços e, assim, torna-se inócuo. O poder do Senhor vence a periculosidade das forças da natureza e daquelas militares, colocadas em campo pelos homens: o mar, que parecia barrar o caminho para o povo de Deus, deixa passar Israel a pé enxuto, e, em seguida, fecha-se sobre os egípcios abatidos. "A mão poderosa e braço estendido" do Senhor (cf. Dt 5,15, 7,19, 26,8) mostram-se assim em toda a sua força salvífica: o injusto opressor foi vencido, engolido pelas águas, enquanto o povo de Deus "passa" para continuar sua jornada para a liberdade.

A esse caminho faz, agora, referência o nosso Salmo, recordando com uma frase brevíssima o longo peregrinar de Israel até a terra prometida: "Conduziu seu povo no deserto, porque o seu amor é para sempre" (v. 16). Essas poucas palavras contêm uma experiência de quarenta anos, um tempo decisivo para Israel, que, deixando-se guiar pelo Senhor, aprende a viver na fé, na obediência e na docilidade à lei de Deus. São anos difíceis, marcados pela dureza da vida no deserto, mas também anos felizes, de confiança no Senhor, de confiança filial; é o tempo da "juventude", como o define o profeta Jeremias falando a Israel, em nome do Senhor, com expressões cheias de ternura e nostalgia: "Lembro-me de tua afeição quando eras jovem, de teu amor de noivado, no tempo em que me seguias ao deserto, à terra sem sementeiras" (Jr 2, 2). O Senhor, como o pastor do Salmo 23, que contemplamos em uma catequese, por quarenta anos guiou o seu povo, educou-o e amou-o, conduzindo-o para a terra prometida, vencendo também as resistências e a hostilidade dos povos inimigos que queriam obstruir o caminho da salvação (cf. vv. 17-20).

No desenrolar das "grandes maravilhas" que o nosso Salmo enumera, chega-se assim ao momento do dom conclusivo, no cumprimento da promessa divina feita aos Padres: "Deu a sua terra por herança, porque p seu amor é para sempre; em herança a Israel, seu servo, porque o seu amor é para sempre" (vv. 21-22). Na celebração do amor eterno do Senhor, faz-se agora uma memória do dom da terra, um presente que o povo deve receber sem nunca apossar-se dela, vivendo continuamente em uma atitude de aceitação agradecida e grata. Israel recebe o território em que habitar como "herança", um termo que designa de modo genérico a posse de um bem recebido de outro, um direito de propriedade que, especificamente, faz referência ao patrimônio paterno. Uma das prerrogativas de Deus é a de "dar"; e agora, no final do caminho do Êxodo, Israel, destinatário do dom, como um filho, entra na terra da promessa cumprida. Terminou o tempo da peregrinação sob as tendas, numa vida marcada pela precariedade. Agora, começou o tempo feliz da estabilidade, da alegria de construir as casas, de plantar as vinhas, de viver em segurança (cf. Dt 8,7-13). Mas é também o tempo da tentação idolátrica, da contaminação com os pagãos, da autossuficiência que faz esquecer a Origem do dom. Por isso, o Salmista menciona a humilhação e os inimigos, uma realidade da morte em que o Senhor, mais uma vez, revela-se como Salvador: "Na nossa angústia, recordou-se de nós, porque o seu amor é para sempre; libertou-nos dos nossos adversários, porque o seu amor é para sempre" (vv. 23-24).

Neste ponto surge a pergunta: como podemos fazer deste Salmo uma oração nossa, como podemos apropriar-nos, para a nossa oração, deste Salmo? Importante é a estrutura do Salmo, no início e no fim: a criação. Voltaremos a este ponto: a criação como grande dom de Deus do qual vivemos, no qual Ele se revela em sua bondade e grandeza. Portanto, ter presente a criação como dom de Deus é um ponto comum para todos nós.Depois segue a história da salvação. Naturalmente, nós podemos dizer: essa libertação do Egito, o tempo do deserto, a entrada na Terra Santa e, em seguida, os outros problemas, que estão muito longe de nós, não são a nossa história.Mas devemos estar atentos à estrutura fundamental desta oração. A estrutura fundamental é que Israel recorda-se da bondade do Senhor.Nessa história, há muitos vales escuros, há muitas passagens de dificuldade e morte, mas Israel recorda-se de que Deus era bom e, então, consegue sobreviver neste vale escuro, neste vale da morte, porque se recorda do Senhor. Israel tem a memória da bondade do Senhor, de seu poder; sua misericórdia é para sempre. E isso é importante também para nós: ter uma memória da bondade do Senhor. A memória torna-se uma força de esperança. A memória nos diz: Deus existe, Deus é bom, eterna é a sua misericórdia. E assim a memória abre, mesmo na escuridão de um dia, de um período, a estrada para o futuro: é luz e estrela que nos guia. Também nós temos uma memória do bem, do amor misericordioso, eterno de Deus. A história de Israel já é uma memória também para nós, como Deus se mostrou e criou seu próprio povo. Depois, Deus se fez homem, um de nós: viveu conosco, sofreu conosco, morreu por nós. Permanece conosco no Sacramento e na Palavra. É uma história, uma memória da bondade de Deus, que nos assegura a sua bondade: o seu amor é eterno. E, depois, também nestes dois mil anos da história da Igreja, existe sempre, de novo, a bondade do Senhor. Após o período obscuro da perseguição nazista e comunista, Deus libertou-nos, mostrou-nos que é bom, que tem força, que a sua misericórdia é para sempre. E, como na história comum, coletiva, está presente esta memória da bondade de Deus, essa ajuda-nos, torna-se uma estrela de esperança, ainda que cada um tenha a sua história pessoal de salvação, e devemos realmente valorizar essa história, ter sempre a memória das grandes coisas que Ele fez na nossa vida, para ter confiança: a sua misericórdia é eterna. E se, hoje, estamos na noite escura, amanhã Ele nos liberta, porque a sua misericórdia é eterna.

Retornemos ao Salmo, porque, no final, ele retorna à criação. O Senhor - assim diz - "dá alimento a toda a carne, porque o seu amor é para sempre" (v. 25). A oração do Salmo conclui-se com um convite ao louvor: "Dai graças ao Deus dos céus, porque o seu amor é para sempre". O Senhor é Pai bom e providente, que dá herança aos seus filhos e dá a todos o alimento para viver.O Deus que criou os céus e a terra e os grandes luminares celestes, que entra na história humana para trazer a salvação para todos os seus filhos, é o Deus que preenche o universo com a sua presença de bem, cuidando de nossa vida e dando-nos o pão. O poder invisível do Criador e Senhor cantado no Salmo revela-se na pequena visibilidade do pão que nos dá, com o qual nos faz viver. E assim esse pão de cada dia simboliza e sintetiza o amor de Deus como Pai, e abre-nos para o cumprimento do Novo Testamento, aquele "pão da vida", a Eucaristia, que nos acompanha na nossa existência de crentes, antecipando a alegria definitiva do banquete messiânico no céu.

Irmãos e irmãs, o louvor benedicente do Salmo 136 fez-nos reconstituir as etapas mais importantes da história da salvação, até chegar ao mistério pascal, em que a ação salvífica de Deus atinge o seu ápice. Com alegria, celebremos, portanto, o Criador, Salvador e Pai fiel, que "amou tanto o mundo que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna" (Jo 3, 16). Na plenitude dos tempos, o Filho de Deus se fez homem para dar a sua vida pela salvação de cada um de nós, e dá-se como pão no mistério eucarístico para fazer-nos entrar na sua aliança, que nos torna filhos. A esse ponto chega a bondade misericordiosa de Deus e a sublimidade do seu "amor para sempre".

Quero, por isso, concluir esta Catequese fazendo minhas as palavras que São João escreve em sua Primeira Carta e que deveremos sempre manter presentes na nossa oração: "Considerai com que amor nos amou o Pai, para que sejamos chamados filhos de Deus. E nós o somos de fato" (I Jo 3, 1). Obrigado.

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

LECTIO DIVINA, Domingo, 09 de outubro de 2011, 28º Domingo do Tempo Comum – Ciclo A.

TEXTO BÍBLICO: Mateus 22.1-14

1. LEITURA - Que diz o texto?

Pistas para leitura
Olá, Lectionautas!
Neste domingo também, a liturgia apresenta-nos um texto de Mateus no qual se fala do Reino de Deus. Jesus ensina os sacerdotes, os líderes judeus e os fariseus com uma parábola:
O Reino do Céu é como um rei que preparou uma festa de casamento para seu filho.  3Depois mandou os empregados chamarem os convidados.
Era costume, em Israel, quando havia bodas, anunciar-se com antecedência, porque era preciso preparar a comida para a quantidade de convidados. Uma vez que se tinha o número de convidados, faziam-se os preparativos, que podiam durar muitos dias (era necessário engordar o gago, conseguir os alimentos e as bebidas, e preparar bem o lugar). Quando tudo estava pronto, o rei enviava seus emissários para anunciar que tudo estava preparado.
Mas eles não quiseram vir.  4Então mandou outros empregados com o seguinte recado: “Digam aos convidados que tudo está preparado para a festa. Já matei os bezerros e os bois gordos, e tudo está pronto. Que venham à festa!”
E o rei encontra-se, pois, diante de um dilema: os convidados não querem participar do banquete de bodas. Torna a enviar outros empregados para lembrar-lhes que a carne já está no ponto, que devem participar da festa.
Mas os convidados não se importaram com o convite e foram tratar dos seus negócios: um foi para a sua fazenda, e outro, para o seu armazém.  6Outros agarraram os empregados, bateram neles e os mataram.
O rei fica muito enfurecido com isto e decide acabar com esses convidados maus, e para que não se perca a comida nem a festa, manda convidar outros que se encontram pelas ruas, para que vão à festa. E assim a casa encheu-se de gente. Contudo, recorda-nos que, para ir a uma festa, é preciso ir vestido com roupa de festa. O que não estava assim vestido foi posto para fora.
A parábola narrada por Jesus, como podemos ver, desenvolve-se em três atos: duas chamadas aos próprios convidados e um convite aos marginalizados. Jesus identifica a festa de bodas com o banquete messiânico. E também aqui faz um resumo da história da salvação: os servos que saem a anunciar são os profetas, que os convidados (ou seja, o povo de Israel) não aceitaram, e o convite é um ato livre de Deus: ele não é obrigado a convidar.
“Tudo está pronto” ¬– Esta frase aparece três vezes no texto, com alguma variação, e nos fala da urgência: os pratos estão quentes… e os convidados não se dão conta da premência, o que dá a entender que eles não levam em consideração as coisas de Deus, apresentando desculpas inválidas.
Sair pelos caminhos significava ir para fora, aos mercados, onde se encontravam os marginalizados de Israel, os publicanos, os pecadores e os que se ocupavam de  afazeres considerados desprezíveis. O texto diz que entraram para a festa maus e bons, visto que os pecadores também são convidados para o Reino de Deus. Contudo, para entrar, é preciso ter a roupa de bodas, ou seja, o arrependimento de uma vida convertida, cheia de boas obras. Os pecadores que não se arrependerem serão lançados fora.
Muitos são os convidados, diz Mateus, mas poucos são os que Deus aceita, porque não se converteram completamente.
Mateus está respondendo à sua comunidade, na qual havia judeus convertidos ao cristianismo, e também gentios (ou seja, não judeus) que haviam aceitado a fé cristã. Esta comunidade pode sentir-se internamente dividida pelas tradições culturais que todos traziam. No entanto, Mateus oferece aqui, com esta parábola, a resposta a pergunta: o que é o Reino de Deus? E o lembra nestes dois movimentos:
1. Os convidados, com suas duas categorias: os do começo (referindo-se aos filhos de Israel, a quem “o Rei” enviou seus emissários, os profetas, e que não quiseram escutar) e também os que foram convidados a seguir, que são maus e bons.
2. E a sentença para o convidado que estava sem a roupa apropriada.
Daí, vê-se claramente que nem todos os que foram convidados serão escolhidos para ficar no banquete. O que torna os convidados eleitos é o amor que manifestam nas circunstâncias concretas da vida (como dirá, mais adiante, no Capítulo 25,31-46, no Juízo Final).
Desta forma, Mateus mostra que o Julgamento de Deus não é somente para o povo judeu, mas também para a Igreja e para todos os membros da Igreja que não querem converter-se plenamente.
Para levar em consideração: O banquete nupcial é uma forma de apresentar a alegria do Reino de Deus, que se desposa com a humanidade.
Outros textos bíblicos a serem comparados: Isaías 25.6-10; Lucas 14.15-24.
Para continuar o aprofundamento destes temas, pode-se consultar, na Bíblia de Estudos NTLH, o verbete: Banquete.
Perguntas para a leitura
  • A quem Jesus está dando este exemplo?
  • Com que se parece o Reino?
  • Quem o Rei enviou e com que encargo?
  • O que responderam os convidados?
  • O que fez, então, novamente o Rei?
  • O que responderam os convidados aos novos mensageiros?
  • Qual foi a atitude do Rei?
  • Quem ele convidou, a seguir, para a festa de bodas?
  • O que aconteceu com aquele que não estava vestido convenientemente?
  • Como termina a parábola de Jesus?

2 – MEDITAÇÃO -O que me diz? O que nos diz?

Perguntas para a meditação
Perante texto tão importante, devo perguntar-me:
  • Estou consciente de que o Senhor me chama constantemente?
  • Tal como os primeiros convidados, também apresento desculpas para não atender ao chamado do Reino? Que desculpas dou?
  • Quais são essas coisas mundanas pelas quais rechaço o convite do Senhor?
  • Qual seria a forma de construir o Reino hoje?
  • Eu poderia ser também um dos servos de Deus, anunciando a todos a Salvação? Como seria isso?
  • O que acontece se me sinto na festa, mas não estou com a roupa adequada, ou seja, convertido?
  • O que acontecerá com os que não se convertem?
  • Como posso demonstrar que estou convertido?

3 – ORAÇÃO - O que lhe digo? O que lhe dizemos?

A oração é a resposta que damos a Deus que se nos manifesta por primeiro. Embalados por texto tão profundo, onde estamos todos implicados de maneira particular, visto que Jesus fala a nós, os que cremos, à Igreja, poderíamos tomar como oração o hino de Laudes da II Semana, que diz assim:
Senhor, tu me chamaste…
para ser instrumento de tua graça,
para anunciar a boa nova,
para curar as almas.
Instrumento de paz e de justiça,
arauto de todas as tuas palavras,
água para acalmar a sede ardente,
mão que bendiz e que ama.
Senhor, tu me chamaste…
para curar os corações feridos,
para gritar, em meio às praças, que o amor está vivo,
para despertar do sono os que dormem, e libertar o cativo.
Senhor, tu me chamaste…
para salvar o mundo já cansado,
para amar os homens
que tu, Pai, me deste como irmãos.
Senhor, me queres para abolir as guerras
e aliviar a miséria e o pecado,
fazer tremerem as pedras
e afugentar os lobos do rebanho.
Sou cera macia em tuas mãos,
faze de mim o que quiseres.

4 – CONTEMPLAÇÃO

Como interiorizo a mensagem? Como interiorizamos a mensagem?
Para a passagem da contemplação, propomo-nos interiorizar esta mensagem de Jesus que é para nós. Contemplar é viver escutando o Senhor. Por isso, queremos, agora, escutar de seus lábios esta parábola como se fosse a primeira vez que a escutamos. Façamos silêncio interior para escutar a parábola pela boca do próprio Jesus.
Podemos utilizar alguns dos versículos ou frases que mais nos chamam a atenção, para continuar repetindo-os durante alguns dias. Podemos repetir frases como estas:
  • Vão às ruas e convidem todos para a festa de bodas.
  • Sou convidado pessoalmente pelo Senhor.
  • Devo converter-me e entrar em sua festa com a roupa limpa.
  • Obrigado, Senhor, por me chamares a ser mensageiro de tua graça.

5 – AÇÃO

A que me comprometo? A que nos comprometemos?
Propostas pessoais
  • Descobrir que o Senhor me chama pessoalmente. A fim de permanecer na festa, devo ter uma roupa apropriada. Fazer uma lista de todas as coisas que me impedem de ser escolhido e pedir perdão por elas. Fazer atos pessoais que demonstrem que sim, estou convertido.
Propostas comunitárias
  • Se estou em grupo, ver todas as vezes em que não queremos escutar o Senhor através de seus enviados. Fazer uma lista das desculpas que damos normalmente e propor-se uma mudança grupal diante delas.

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Catequese do Papa: “Tu estás comigo” é nossa certeza



CIDADE DO VATICANO, quarta-feira, 5 de outubro de 2011 (ZENIT.org) – Apresentamos, a seguir, a catequese que o Papa Bento XVI dirigiu hoje aos fiéis reunidos para a audiência geral.
* * *
Queridos irmãos e irmãs:
Dirigir-se ao Senhor na oração implica em um ato de confiança, com a consciência de entregar-se a um Deus que é bom, “misericordioso, lento à ira, rico em amor e fidelidade” (Ex 34,6-7; Sal 86,15; cf. Jl 2,13; Gn 4,2; Sal 103,8; 145,8; Ne 9,17). Por isso, hoje eu gostaria de refletir com vocês sobre um salmo impregnado de confiança em sua totalidade, no qual o salmista expressa sua serena certeza de que é guiado e protegido, posto a salvo de todo perigo, porque o Senhor é o seu pastor. Trata-se do Salmo 23 (segundo a tradição greco-latina, número 22), um texto familiar para todos e amado por todos. “O Senhor é o meu pastor, nada me falta”: assim começa esta bela oração, evocando o ambiente nômade do pastoreio e a experiência de conhecimento recíproco que se estabelece entre o pastor e as ovelhas que compõem o seu pequeno rebanho. A imagem recria uma atmosfera de confiança, intimidade, ternura: o pastor conhece as suas ovelhas, uma a uma, chama-as pelo seu nome e elas o seguem porque o reconhecem e se fiam dele (cf. Jn 10,2-4). Ele cuida delas, protege-as como bens preciosos, está preparado para defendê-las, para garantir seu bem-estar, para fazê-las viver em tranquilidade. Nada pode faltar-lhes se o pastor está com elas. A esta experiência se refere o salmista, chamando Deus de seu pastor e deixando-se guiar por Ele rumo a campos seguros:
“Ele me faz descansar em verdes prados,
a águas tranquilas me conduz.
Restaura minhas forças,
guia-me pelo caminho certo,
por amor do seu nome.” (vv. 2-3)
A visão que se abre aos nossos olhos é o dos prados verdes e fontes de água límpida, oásis de paz rumo aos quais o pastor acompanha seu rebanho, símbolos de lugares de vida aos quais o Senhor conduz o salmista, que se sente como as ovelhas recostadas no campo, ao lado de um manancial, em situação de repouso, não em tensão ou em estado de alarme, mas confiadas e tranquilas, porque o lugar é seguro, a água é fresca e o pastor vela por elas. Não nos esqueçamos de que a cena evocada pelo salmo está ambientada em uma terra em grande parte desértica, tostada pelo sol abrasador, onde o pastor semi-nômade do Oriente Médio mora com o seu rebanho nas estepes áridas que se estendem ao redor dos povoados. Mas o pastor sabe onde encontrar capim e água, essenciais para a vida, sabe guiar em direção ao oásis, onde a alma se “refresca” e é possível recuperar as forças e extrair novas energias para retomar o caminho.
Como diz o salmista, Deus o guia a “verdes prados” e “águas tranquilas”, onde tudo é abundante, onde tudo se dá copiosamente. Se o Senhor é o pastor, inclusive no deserto, lugar de carestia e de morte, não diminui a certeza de uma radical presença de vida, até o ponto de se poder dizer: “Nada me falta”. O pastor, de fato, tem no coração o bem do seu rebanho, adapta seus próprios ritmos e suas próprias exigências às das suas ovelhas, caminha e mora com elas, guiando-as por caminhos “certos”, isto é, adaptados a elas, com atenção às suas necessidades e não às próprias. A segurança do seu rebanho é a sua prioridade e a isso obedece a sua orientação.
Queridos irmãos e irmãs, também nós, como o salmista, se caminharmos seguindo o “Bom Pastor”, ainda que possam parecer difíceis, tortuosos ou longos os caminhos da vida, inclusive muitas vezes em regiões desérticas espiritualmente, sem água e com um sol de racionalismo abrasador, sob a orientação do Senhor deveremos estar seguros de que estes são os “certos” para nós e de que o Senhor nos guia, está sempre perto de nós e de que não nos faltará nada. Por isso, o salmista pode declarar uma tranquilidade e uma segurança sem dúvidas nem preocupações:
“Se eu tiver de andar por vale escuro,
não temerei mal nenhum,
pois comigo estás.
O teu bastão e teu cajado me dão segurança.” (v. 4)
Quem caminha com o Senhor nos vales escuros do sofrimento, das dúvidas e de todos os problemas humanos, sente-se seguro. “Tu estás comigo”: esta é a nossa certeza, a que nos sustenta. A escuridão da noite dá medo, com suas sombras mutáveis, a dificuldade de distinguir os perigos, seu silêncio cheio de barulhos indecifráveis. Se o rebanho se mover depois do pôs do sol, quando a visibilidade não é boa, é normal que as ovelhas se inquietem, pois existe o risco de cair, afastar-se ou perder-se, e também há o temor de possíveis agressores que se escondem na escuridão. Para falar do vale “escuro”, o salmista usa uma expressão hebraica que evoca as trevas da morte; portanto, o vale que precisamos atravessar é um lugar de angústia, de ameaças terríveis, de perigos de morte. No entanto, o orante caminha seguro, sem medo, porque sabe que o Senhor está com ele. Esse “comigo estás” é uma declaração de confiança inquebrantável, que resume uma experiência de fé radical; a proximidade de Deus transforma a realidade, o vale escuro perde toda a sua periculosidade, esvazia-se toda ameaça. O rebanho pode caminhar tranquilo, acompanhado pelo som familiar do cajado que bate no chão e indica a presença tranquilizadora do pastor.
Esta imagem confortante fecha a primeira parte do salmo e dá lugar a uma cena diferente. Estamos ainda no deserto, onde o pastor vive com o seu rebanho, mas agora estamos sob a sua barraca, que se abre para acolher:
“Diante de mim preparas uma mesa
aos olhos de meus inimigos;
unges com óleo minha cabeça,
meu cálice transborda.” (v. 5)
Agora, o Senhor se apresenta como aquele que acolhe o orante, com os sinais de uma hospitalidade generosa e repleta de atenções. O anfitrião divino prepara o alimento na “mesa”, um termo que, em hebraico, significa – em seu sentido primitivo – a pele do animal que se estendia na terra e onde se colocavam os víveres para uma refeição em comum. É um gesto de partilhar não só o alimento, mas também a vida, uma oferenda de comunhão e de amizade que cria vínculos e que expressa solidariedade. Depois está o generoso dom do óleo perfumado sobre a cabeça, que alivia o calor do sol do deserto, refresca e suaviza a pele, animando o espírito com sua fragrância. Finalmente, o cálice transbordante acrescenta uma nota de festa, com seu vinho saboroso, compartilhado com uma generosidade abundante. Refeição, óleo, vinho: são os dons que fazem viver e que dão alegria, porque vão além do que é estritamente necessário e expressam a gratuidade e a abundância do amor. O Salmo 104 proclama, celebrando a bondade que vem do Senhor: “Fazes crescer o feno para o gado, e a erva útil ao homem, para que tire da terra o seu pão: o vinho que alegra o coração do homem, o óleo que realça o brilho do rosto e o pão que sustenta o seu vigor” (v.14 e 15). O salmista é objeto de muitas atenções, pelas quais se vê um viajante que encontra refúgio em uma barraca acolhedora, enquanto seus inimigos devem olhar, sem poder intervir, porque aquele que era considerado sua presa recebeu refúgio, tornou-se hóspede sagrado, intocável. O salmista somos nós, quando somos realmente crentes em comunhão com Cristo. Quando Deus abre a sua barraca para nos acolher, nada pode nos causar dano.
Ao partir novamente o viajante, a proteção divina continua e o acompanha em sua viagem:
“Felicidade e graça vão me acompanhar
todos os dias da minha vida
e vou morar na casa do Senhor
por muitíssimos anos.” (v. 6)
A bondade e a fidelidade de Deus são a escolta que acompanha o salmista que sai da barraca e se coloca em caminho novamente. Além disso, é um caminho que adquire um novo sentido, tornando-se peregrinação rumo ao Templo do Senhor, o lugar santo no qual o orante quer “habitar” para sempre e ao qual quer “regressar”. O verbo hebraico que se utiliza aqui tem o sentido de “voltar”, mas, com uma pequena modificação vocálica, pode ser entendido como “morar”, e assim está traduzido nas versões antigas e na maior parte das traduções modernas. Ambas podem ser mantidas: voltar ao Templo e morar nele é o desejo de todo israelita, e morar perto de Deus, em sua proximidade e bondade, é o anseio e a nostalgia de todo crente: poder habitar realmente onde está Deus, perto d'Ele.
O rastro do pastor leva à sua casa, é a metade de todo caminho, oásis desejado no deserto, tenda de refúgio na fuga dos inimigos, lugar de paz onde experimentar a bondade e o amor fiel de Deus, dia a dia, na alegria serena de um tempo sem fim.
As imagens deste salmo, com sua riqueza e profundidade, acompanharam toda a história e a experiência religiosa o povo de Israel e acompanham os cristãos. A figura do pastor, em especial, evoca o tempo do Êxodo, o longo caminho no deserto, como um rebanho sob a guia do Pastor divino (cf. Is 63,11-14; Sal 77,20-21; 78,52-54). E, na Terra Prometida, era o rei quem tinha o dever de apascentar o rebanho do Senhor, como Davi, pastor escolhido por Deus e figura do Messias (cf. 2Sam 5,1-2; 7,8; Sal 78,70-72). Depois, no exílio na Babilônia, quase um novo Êxodo (cf. Is 40,3-5.9-11; 43,16-21), Israel é reconduzido à pátria como ovelhas dispersas e reencontradas, reconduzidas por Deus aos exuberantes pastos e lugares de repouso (cf. Ez 34,11-16.23-31). Mas é no Senhor Jesus que toda a força evocadora do nosso salmo chega à sua plenitude, encontra o cume do seu significado: Jesus é o “Bom Pastor” que vai buscar a ovelha perdida, que conhece suas ovelhas e que dá a vida por elas (cf. Mt 18,12-14; Lc 15,4-7; Jn 10,2-4.11-18). Ele é a via, o caminho justo que leva à vida (cf. Jn 14,6), a luz que ilumina o vale escuro e que vence os nossos medos (cf. Jn 1,9; 8,12; 9,5; 12,46). Ele é o anfitrião generoso que nos acolhe e nos coloca a salvo dos inimigos, preparando-nos a mesa do seu Corpo e do seu Sangue (cf. Mt 26,26-29; Mc 14,22-25; Lc 22,19-20), a definitiva do banquete messiânico no Céu (cf. Lc 14,15ss; Ap 3,20; 19,9). Ele é o Pastor real, rei na doçura e no perdão, entronizado no lenho glorioso da cruz (cf. Jn 3,13-15; 12,32; 17,4-5).
Queridos irmãos e irmãs, o Salmo 23 nos convida a renovar a nossa confiança em Deus, abandonando-nos totalmente em suas mãos. Peçamos com fé que o Senhor nos conceda caminhar para sempre pelos seus caminhos como rebanho dócil e obediente; que nos acolha na sua casa, em sua mesa e nos conduza a “águas tranquilas”, para que, ao acolher o dom do seu Espírito, possamos beber nas suas fontes, mananciais dessa água viva que “jorra para a vida eterna” (Jn 4,14; cf. 7,37-39).
Obrigado!
[No final da audiência, Bento XVI saudou os peregrinos em vários idiomas. Em português, disse:]
Queridos irmãos e irmãs,
Abordamos hoje o Salmo 23, um texto muito conhecido e amado, no qual se exprime a certeza de saber-se guiado e protegido pelo Senhor. Ele é o Pastor que nos conduz e que não permite que falte coisa alguma. Trata-se, de fato, de um texto cujas imagens, ricas e profundas, acompanharam toda a história de Israel. A figura do Pastor evoca os tempos do Êxodo, o longo caminho pelo deserto, onde Deus guia o seu Povo como um Pastor, para a Terra Prometida. Mas, é com Cristo que toda a força simbólica deste salmo encontra a sua plenitude de significado. Jesus é o Bom Pastor que vai à procura da ovelha perdida, que conhece as suas ovelhas pelo nome. Ele é a luz que ilumina o vale tenebroso, e tira-nos todo o medo. Ele é o anfitrião generoso que nos acolhe e põe a salvo dos inimigos, preparando-nos a mesa do seu Corpo e do seu Sangue. Assim sendo, peçamos ao Senhor que nos conceda caminhar, pelas suas sendas, como rebanho dócil e obediente, e nos sacie nas “águas repousantes” do seu Espírito, da fonte de água viva que jorra para a vida eterna.
Saúdo cordialmente todos os peregrinos de língua portuguesa presentes nesta Audiência, nomeadamente o grupo de diáconos permanentes vindos de Lisboa e os sacerdotes da Arquidiocese de Diamantina, acompanhados de seu bispo. Possa cada um de vós, guiado pelo Bom Pastor, ser por todo o lado um zeloso mensageiro do amor de Deus e uma testemunha corajosa da fé. Que Deus vos abençoe!
[Tradução: Aline Banchieri.

Vocação: chamado de Deus


Vocação significa chamado: Alguém chama e alguém é chamado. Há uma ligação íntima entre aquele que vocaciona e aquele que é vocacionado ou chamado. Quem vocaciona dá a vocação e alimenta a chama do vocacionado.
A vocação, sem a qual nenhuma outra nos enriqueceria, é o chamado a existir, à vida. A vida humana, segundo a Palavra revelada, é dom sagrado, precioso e sublime do amor de Deus. Eis o que afirma a Bíblia: Deus disse: “Façamos o homem à nossa imagem e semelhança”. (Gen 1)
A Bíblia ratifica a Vocação à vida humana como Dom de Deus a cada pessoa e diz categoricamente que “o Senhor Deus formou, pois, o homem do barro da terra, e inspirou-lhe nas narinas um sopro de vida e o homem se tornou um ser vivente” (Gen 2,7).
A imagem bíblica deixa clara a procedência da vida humana, matéria trabalhada pelas mãos do criador e pelo sopro vivificante do Espírito de Deus moldando à criatura humana em uma unidade perfeita, distinta e diferente Dele, mas criada à sua imagem e semelhança.
Somos chamados à vida, ou seja, a sua, a minha, as nossas vidas são dons de Deus, nós apenas as recebemos da gratuidade de seu amor. Mas… vida dada, vida recebida, o que fazer com a vida? Só temos uma vida e precisamos usá-la bem.
É necessário canalizá-la, a partir da nossa liberdade, iluminada pela fé e em diálogo com a Igreja, para objetivos que discernimos como “a vontade de Deus para nós” .Vocação é um desígnio pessoal do amor de Deus para cada pessoa. Quando Deus nos chamou à vida, no seu coração de Pai, Ele já guardava desde toda a Eternidade um estado de vida, uma graça para enriquecer a pessoa e enviá-la à missão.
Vocação e missão se encontram estreitamente ligados. Por isso, o que importa é discernir a vontade de Deus e abraçá-la. Se esta for o casamento, vamos assumí-la, se for o sacerdócio ou a vida religiosa ou mesmo consagrados como casados, assumamos a postura de Maria: “Faça-se em mim segundo a vossa Palavra”( Lc 1, 38 ).
Na grande vocação cristã há um chamado de Deus dirigido a todos: “sede santos porque eu sou Santo”. No Novo Testamento está escrito “a vontade de Deus é a vossa santificação”. Religiosos, padres e leigos vocacionados, são chamados antes de tudo à santidade.
Jesus nos ilumina para discernir a vontade de Deus, propondo o caminho do amor: “A quem me ama eu me manifestarei”. A vocação à santidade é para todos, ninguém está excluído. No céu entra quem, aceitando o chamado de Deus, se deixa conduzir pelo Espírito Santo e se assemelha, no coração e na prática da vida, a Jesus, aqui na terra.
Mas, vocação, no caminho da Igreja, é chamado de Deus, graça que enriquece o batizado e o convida para uma consagração e uma missão. O primado do ser sobre o ter é o reconhecimento do sentido da vida como o chamado do amor gratuito de Deus, como dom livre e responsável de si mesmo aos outros em Cristo e na atitude evangélica de serviço de Maria. Não fostes vós que me escolhestes mas eu que vos escolhi” (Jo 15,16).
Vocacionados ao sacerdócio, à vida religiosa sob os mais diversos carismas são sempre pessoas amadas pessoalmente por Deus e candidatos à consagração. Ainda hoje Deus continua chamando. Qual sua resposta a Jesus que te chama?

Dom José Palmeira Lessa
Arc. Metropolitano de Aracaju – SE

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Pronunciamento de Dom Josafá na Abertura da Exposição Vida de Dom Ricardo


Autoridades presentes, caríssimos padres, diáconos, religiosas, seminaristas, lideranças das diversas organizações desta cidade e dos municípios vizinhos, senhoras e senhores.
É com grande satisfação que apresentamos nesta noite, na Casa da Cultura, a Exposição “Trajetória de Dom Ricardo”. Amanhã, às 8h30, no Palácio das Artes, na Praça Castro Alves, teremos a alegria descerrar a fita e os visitantes poderão ter diante dos olhos a exposição propriamente dita.
No dia 26 de fevereiro, quando assumi o governo pastoral da Diocese de Barreiras, disse da minha intenção de perpetuar a memória de Dom Ricardo e manter vivo o seu forte legado de pastor dedicado à promoção e à defesa da pessoa humana, especialmente dos mais pobres, dentro do imenso território da Diocese de Barreiras.
Nos meses de março e abril, procuramos diversas vezes o Instituto de Ciências Ambientais e Desenvolvimento Sustentável da Universidade Federal da Bahia, através de seu Curso de Licenciatura em História, para estudarmos as possibilidades de celebrar uma parceria em torno de projetos de investigação histórica sobre a vida e atuação de Dom Ricardo na Diocese de Barreiras.
Zelar pela memória e estimular a produção historiográfica sobre Barreiras e a região oeste da Bahia estão entre os principais objetivos do Curso de História do Instituto de Ciências Ambientais e Desenvolvimento Sustentável – ICADS/UFBA.
Como a concretização da parceria e a organização das atividades de longo prazo demandam exigências burocráticas e prazos institucionais, com a supervisão do Curso de História, nós fizemos um plano inicial de trabalho com a professora de História, Alessandra Amaral Andrade e dois estudantes, da UFBA, Mirley Santana de Souza e João Pedro Pereira Rocha.


Se os registros paroquiais, com as anotações dos sacramentos, permitem a reconstrução da história de santificação do povo cristão, as fontes conservadas nos arquivos da Cúria consentem e favorecem a transmissão da história da ação pastoral dos bispos nas suas dioceses (Cf. Carta aos Bispos Diocesanos, de Francesco Marchisano, Presidente da Pontifícia Comissão para os Bens Culturais da Igreja, Funzione pastorale degli archivi ecclesiastici, Vaticano, 2.2.1997). Então, permitimos, com os devidos cuidados, a consulta de alguns livros, escritos e jornais do acervo da Diocese de Barreiras para produção de um material biográfico sobre Dom Ricardo a ser divulgado no seu primeiro aniversário de falecimento, 17 de agosto de 2011.
Então, em continuidade com as missas e as comemorações no Mosteiro de Kremsmünster – Áustria e as que cada paróquia da diocese realizou no dia 17 de agosto e no aniversário de nascimento, 5 de setembro, nós deveríamos ter um primeiro olhar sobre a trajetória de Dom Ricardo na Diocese de Barreiras. 
Isso não foi possível. A pesquisa documental, prevista para maio, junho e julho, se estendeu ainda pelos primeiros quinze dias do mês de agosto. A segunda metade de agosto e o mês de setembro ficaram para a professora a elaboração da cronologia, discussão o texto e organização a exposição. A Professora Alessandra, os jovens estudantes, o Padre José Grigório, Padre Eraldo, Neuraci, Ir. Cida, Amanda, Nilza, o seminarista Daniel e ainda outras pessoas se desvelaram nos últimos meses para que chegássemos esses momentos tão importantes para a nossa história diocesana.
Para mim é de suma importância o conhecimento aprofundado do pastoreio de Dom Ricardo.
Nesses sete meses de ministério pastoral, eu percorri as sedes paroquiais, encontrei os mais diversos agentes, celebrei as festas dos padroeiros, visitei as mais diversas obras e instituições que compõem a diocese de Barreiras. Vi que estão condicionadas por uma realidade sócio-econômico-cultural difícil do Oeste Baiano, mas percebo que estão, indelevelmente, marcadas pelas opções pastorais assumidas por Dom Ricardo nos seus 36 anos de ministério.
Nos arquivos, nos escritos e documentos estão expressas opções inteligentes, decisões ponderadas, conselhos sempre sábios, indicações pastorais pertinentes e um testemunho de vida cristã autêntica. Em todos os momentos e lugares vemos um pastor que ama o povo de Barreiras com o coração de Cristo Redentor. 
Para dar novos passos e abrir horizontes futuros, como disse na minha celebração inicial, devo partir das Sagradas Escrituras, da Tradição, do Magistério dos Papas, dos Bispos da AL e do Brasil, mais concretamente, da sabedoria do meu antecessor; que aprendi admirar ainda mais com os padres, com os diáconos, as autoridades dos diversos municípios, as lideranças das diversas comunidades, pastorais e serviços e com todo o povo de Deus da diocese de Barreiras.
Como disseram os antigos, nós poderemos nos sentir “gigantes”, embora anãos, se olharmos o futuro de cima dos ombros das gerações que nos precederam na exuberância da única fé. As fontes históricas nos unem a Jesus Cristo, aos escritos da primeira comunidade dos apóstolos, a todas as comunidades eclesiais, chegando inclusive aos documentos que narram o processo de evangelização mais atual de cada Igreja. A pesquisa nos une de maneira direta à fundação da Igreja de Barreiras, através de seu primeiro bispo.


Essa exposição traz um pouco de Dom Ricardo e um pouco de Dom Ricardo é luz para Barreiras e para os grandes desafios de sua região.
Como dissemos no início, a exposição é um projeto inicial. Não termina nela o interesse pela memória de Dom Ricardo. A parceria com a Universidade, o apoio de outras instituições e o zelo de toda a Diocese de Barreiras nos permitirão de ampliar a cronologia, publicar um livro histórico-biográfico sobre Dom Ricardo, organizar o Memorial, construir a Igreja de São Bento e dar continuidade ao seu fecundo ministério.


Barreiras-Ba, 03 de Outubro de 2011
Dom Josafá Menezes da Silva
Bispo da Diocese de Barreiras